sábado, 12 de abril de 2014

A Visita do Papai Noel


"As pessoas sentem minha escrita como uma agressão; elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte; eu não as condeno à morte, simplesmente suponho que já estejam mortas" Michel Foucault. ((a revolta é a nobreza do escravo.Evolução ou Morte)) A favela era imensa. Barracos feitos de madeira, alguns de papelão. A pobreza era de visão extremada. Não havia ali saneamento básico, luz elétrica, água encanada. O abandono total do poder público. Parecia mais um campo de refugiados de guerra, do que brasileiros esquecidos por tudo e por todos. Num dos barracos de madeira, Marcinha, oito anos, seguia a tradição do Natal. Pôs o sapatinho na janela e aguardava ansiosa pelo presente do Papai Noel. Fez assim em segredo, pois, a sua mãe no ano passado havia dito que o Papai Noel não existia para os pobres. Marcinha não acreditou - era viva em seu ser a imagem do velhinho de barba branca e vestido de vermelho, que visitava às crianças no Natal e lhes dava presentes. À meia-noite, viu a sua mãe dormir, roncava. O seu pai fazia meses que não aparecia. A menina não sabia que o pai estava preso. Um barulho, e Marcinha fixou o olhar para a porta do barraco de madeira. Quando olhou para a janela, o sapatinho encardido, furado, não estava mais la. Ficou em pânico. Os olhos saltaram das órbitas soltando um brilho de estrela. -Não, o meu sapatinho... A porta do barraco abriu-se. Entrou um homem vestido de vermelho. A menina o olhou com cuidado, e em dúvida perguntou: - É você, mesmo o Papai Noel? - Sim, sou o verdadeiro. Ele tinha o sapatinho da menina numa de suas mãos e um saco vermelho na outra. Repousou o saco no chão-parecia estar cheio e pesado. - Mas, você tem cabelos compridos e a barba não é branca. - Acredite, eu sou o Papai Noel, é que os meus cabelos ainda não ficaram brancos, sou jovem. Tenho pouco mais de trinta anos. - Hum, a idade do meu pai. - E, cadê o seu pai? - Não sei, ele de vez em quando desaparece... - Eu recebi a sua cartinha. - Oba, trouxe o meu presente? Então, o Papai Noel lhe estendeu uma caixa embalada em papel presente. A menina a desembrulhou com sofreguidão, e tirou dali, com entusiasmo o tão esperado presente. - O pacote de biscoitos que eu pedi, nossa. - Sim. Marcinha, sem se importar com a presença daquele estranho, pôs-se a comer alguns biscoitos. Papai Noel pegou de uma moringa e lhe deu um copo com água. A menina exibia um largo sorriso nos lábios, enquanto mastigava um dos biscoitos. Parecia estar muito faminta. O Papai Noel sorriu. Missão cumprida. Passou a mão pela cabeça da menina, curvou o seu tronco e lhe deu um beijo no rosto. Saiu do barraco. Ele tinha cabelos negros compridos, barba negra. O seu nome era Jesus, mais conhecido como o Messias, o Nazareno -, o verdadeiro Papai Noel dos pobres. Pensou, Jesus antes de sumir nas nuvens: - O resto com a Marcinha é com vocês, homens de boa vontade, cuidem da minha menina. Sejam o Papai Noel dela nos anos vindouros.

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